A foto de mainha

A foto de mainha

Chego à noite em Salvador depois de horas de um voo longo. Quando o avião aterra, estou sempre com a cabeça zonza, demoro dias até sintonizar o fuso horário.

Tenho que pegar um táxi, vou naquele serviço que já te dá o preço antecipado. Informo o endereço e o rapaz me fala em uma voz alta e precisa: bairro da Vitoria, 36 km, 158 reais. Para quem está com a cabeça oca, esta objetividade é um presente.

Me acomodo no carro e o taxista faz a primeira tentativa de conversa.

Está a trabalho ou a passeio, doutora?

Nem um, nem outro respondo em tom de voz amigável, mas dou a entender que estou exausta e sem disposição para papo.

A experiência dos taxistas lhes sinaliza quando o cliente não quer conversa, via de regra não insistem. Depois, ele talvez tenha sido apenas gentil porque a rádio AM transmite uma partida de futebol. Imagino que prefira mesmo ouvir a narração.

Me deleito com a voz dos comentaristas, aquele sotaque nosso tão especial, opiniões que se revezam com ritmo e tiradas interessantes, um bom humor e uma descontração muito típicas da Bahia (e das rádios AM).

Diante de um quase gol, dispara o locutor: “Se ele tivesse feito a unha do pé ontem, essa bola entrava”. Se você não entendeu, ele quis dizer: Faltou muito, muito pouco.

Nos dias que se seguiram, recuperada da viagem, peguei muitos outros táxis e alimentava as conversas. O baiano é muito comunicativo e aberto, e eu me incluo.

Em geral, procuram um gancho, alguma coisa para iniciar o papo. Nesse caso, passávamos na avenida Bonocô, quando o taxista baixinho e magro, olhando para o lado, disse como que para si mesmo:

– Até que enfim, abriu.

– Como? – reagi.

– Não, estou dizendo que abriu o ginásio onde eu faço ginástica. Tava fechado para reforma.

– Pois o senhor faz muito bem, é importante fazer exercícios.

Com esse gancho, a conversa segue.

Me fala do resultado dos exames de sangue, impecável para os seus sessenta e cinco anos, do elogio do médico, do estilo saudável que procura ter. Mas tinha a quem puxar. A mãe tinha completado noventa e dois anos em plena saúde, energia e autoridade.

Que celebridade de trio elétrico, que nada. Ele era fã mesmo era de mainha (a chamava assim, eu também chamo minha mãe desse jeito).

– Manda em tudo, ninguém diz o que ela tem que fazer, quem decide é ela – me dizia divertido, os olhos brilhando.

Aos setenta anos esta senhora teve um câncer no seio, passou por duras provas, mas venceu. Continuou comendo gordura, ai de quem diga que não – me conta.

Fui traçando o perfil daquela mulher forte e cheia de personalidade, que tanta impressão causava aquele filho.

Cheguei ao meu destino, paguei e estou quase abrindo a porta do carro quando ele me diz:

– Só vou pedir um minutinho da senhora, um minutinho mesmo.

– Gente, o que foi? – pensei.

Ele sacou o celular, abriu a galeria, procurava uma foto.

Esperei com paciência.

Até que ele me mostra uma senhora idosa, enfezada, como se diz no interior: “com a cara igual a um bicho”.

A face e a postura de mainha confirmavam minhas impressões. Se tratava de uma matriarca dura, de pulso forte.

Ao taxista, no entanto, não restava nenhum resquício de trauma aparente. Mainha certamente cresceu os filhos com rigor mas, a julgar pelo carinho imenso do filho, com uma boa dose de amor e cuidado.

Agora, você imagina um taxista em Roma, Nova York, São Paulo ou Curitiba mostrar a foto da mãe a uma cliente? E ainda chamando de mainha?

A Bahia tem um jeito, é fato.

Texto e foto: June Meireles

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j.Ferreira
j.Ferreira
1 mês atrás

Esse conto além de maravilhoso é a cara de nossa Salvador .
A cidade é cheia de arte e artista e cada momento é único, inclusive pegar Táxi, Uber ou Ônibus a nossa Bahia é tão diferenciada que sem conhecer vivemos a história e participamos desse momento único e saímos dali que era apenas uma pequena viagem com um mala cheia de emoções.

Como se diz… É a Bahia e nós baianos somos únicos.

Obrigada @June Meireles por relatar sua experiência tão bem contata que me vi dentro do táxi escutando o taxista falar de Mainha. 😂👏🏽👏🏽😊😊

Last edited 1 mês atrás by j.Ferreira
Maria Anita Luz
Maria Anita Luz
1 mês atrás

Interessante o cotidiano de cada um, muitos se repetem outros se calam ..
A vida é uma viagem!
Conta teus Contos e encanta tantos.