A casa branca e o mar da Calábria
A praia citada no livro — aquela onde existe um diálogo entre o protagonista e o mar — existe de fato.
Fica na Calábria, em um pequeno vilarejo à beira do mar Jônico, com águas incrivelmente calmas e uma beleza quase silenciosa.
É uma praia que ganha vida principalmente no verão, quando os visitantes chegam. Nos outros meses, o mar permanece praticamente vazio.
Quando se olha da pequena orla, é possível ver uma casa branca, desocupada, exatamente como a descrita no livro.
Esse é, portanto, o mar de Murilo. E a casa onde ele se abrigou quando…bem, você que leu o livro sabe do que estou falando. Se não leu ainda, corre pra conhecer esse mar.
Sinopse
Um homem acorda sem memória.
Ao olhar pela janela, encontra algo impossível: uma cidade inteira vazia — como se o mundo tivesse simplesmente parado.
Não há movimento. Não há respostas.
Sem entender a realidade distorcida, resta uma inquietação persistente e a necessidade de descobrir o que aconteceu.
Ao caminhar pelas ruas silenciosas, ele encontra figuras que parecem reais — mas que surgem como fragmentos de algo maior, deslocados, fora de lugar.
Por que a vida e o mundo parecem suspensos? Sem alternativas, ele segue adiante. E quanto mais avança, mais a realidade se torna instável.
Até perceber que aquilo que o espera no fim da jornada pode não ser algo externo — mas algo que sua própria mente se recusou a enfrentar.
A Mente Tem uma Curva é um romance metafísico de June Meireles que mergulha na psicologia profunda e conduz o leitor a uma experiência intensa, imprevisível e impossível de ignorar.
Que livro é esse?
A ideia do romance A mente tem uma curva foi gestada ao longo de mais de oito anos. As ideias iam surgindo e eu ia anotando. Algumas se perderam (talvez não fossem importantes). Quando chegou o momento certo, a história parecia caminhar com as próprias pernas (escritores entenderão).
Estimei um ano para a escrita inicial. Ao final de três meses, o texto se completou. Talvez pelo longo período de maturação, ele já tenha nascido pronto. Depois, claro, foi necessário lapidar — um processo feito em várias etapas cuidadosas.
O resultado é o que agora se apresenta.
O título em uma noite de samba
Era noite de sexta-feira em Curitiba. Saímos do trabalho e o chefe nos conduziu a uma casa de samba muito badalada na época. Ele comandava a noite com grandes goles de uísque com guaraná — adorava essa combinação.
Em certo momento, já bem animado, ele se deixou levar pelo samba, pelo uísque e pela euforia do salão cheio, todo mundo dançando.
Foi quando puxou um dos nossos amigos para sambar junto. O problema é que o nosso amigo, completamente sóbrio, não estava no clima. Tentava sair da situação com educação, mas a insistência só aumentava.
Depois de alguns minutos, ele começou a se despedir. Não estava se divertindo.
Me aproximei e disse:
— Mas já vai embora? Fica mais um pouco…
No meio do som alto, ouvi dele uma justificativa. Não entendi bem o que dizia, fato é que ele assim concluiu:
— A noite tem uma curva.
Aquilo me parou.
Era simples, original, uau! Ele tinha sintetizado uma sensação que todo mundo já viveu: a noite vai bem até um ponto — e depois, de repente, muda de direção, para o bem ou para o mal. Quem nunca? Às vezes, sair antes dessa virada é a melhor decisão.
Eu fiquei mais um pouco. E, de fato, a noite fez sua curva (não perigosa, mas fez). Acordei no dia seguinte com uma ressaca leve e uma lembrança: a frase.
Devo guardá-la, pensei. Num mundo cheio de enunciados gastos, aquele não podia se perder.
Quando comecei a pensar no romance, tinha a ideia de explorar algo sobre a mente e seus mistérios. Aos poucos, vieram ideias de universo, curvatura, percepção… e então surgiu: A mente tem uma curva.
A frase icônica do meu amigo perdida no som alto do samba, perdia uma palavra e ganhava o título de um romance.
Textos suprimidos
A mente tem uma curva se apresenta como um romance metafísico, filosófico e psicológico. Foi escrito sem censura de pensamento, mas, desde o início, estava claro para mim que não se tratava de um livro de autoajuda — muito menos religioso. Por isso, suprimi alguns trechos.
Este é um deles.
Trata-se de um dos diálogos entre Murilo e o mar, quando ele pergunta:
— Mas existe vida depois da morte?
O mar respondeu:
— A morte é uma entidade que simplesmente não existe.
Naquele instante, meu ego curioso se acendeu. Era como se uma porta tivesse se aberto e eu pudesse desvendar todos os mistérios. Insisti:
— Se a morte não existe, então podemos reencarnar? Podemos viver várias vidas?
O mar respondeu de imediato:
— Não gaste energia tentando descobrir onde fica o povoado perdido, tacanho e triste, de duas ruas. Concentre-se em encontrar a estrada que leva à metrópole. Uma vez ali, ela também não bastará. O objetivo da busca é encontrar o grande parque, repleto de árvores, jardins cuidados e um céu que se descortina para o universo.
Veja o que descobri depois…
No livro, o protagonista tem diálogos com o mar, que atua como uma espécie de entidade viva — consciente, presente, quase uma voz em constante movimento e equilíbrio.
Depois de escrever o romance, me deparei com algo curioso em um podcast: algumas correntes de pensamento consideram o mar exatamente dessa forma — uma entidade viva, inteligente e sábia, parte de um sistema em permanente troca e harmonia.
Não sei até que ponto isso “explica” o que aparece no livro. Mas achei interessante perceber essa ressonância entre ficção e uma certa leitura do mundo real.
Talvez o mar sempre tenha sido mais do que paisagem (e banho).
Leia trechos do livro
Raios de sol rompem as copas. Procuro um feixe mais direto e deixo que ele beije meu rosto. Santo Deus — o sol. Quanto tempo sem vê-lo. E pássaros! Alegres, vivos, saltando entre os galhos. Os vagantes estão ali, tão próximos dessa luz, mas não a percebem. Bastaria intuí-la e seus destinos mudariam. O sol queimaria seus pecados e os libertaria.
* * *
Saio desse transe de profunda compreensão. O ser continua ali, paciente e disponível. Em vez de comentar o que vi, pergunto se outros também conseguiram se libertar do sistema.
— Sim, alguns conseguem se libertar de si mesmos — responde.
Se libertam de si mesmos.
Absorvo o detalhe que reforça o que já tinha entendido numa conversa com o mar: a libertação não é concedida, mas conquistada através da própria consciência.
* * *
Os seres começam a comer. Abro a minha caixinha, feita de um material que lembra papelão. O conteúdo é uma ração de insetos desidratados. Lagartixas, besouros, algo como um rato pequeno, tudo seco. Vem à lembrança uma viagem que devo ter feito a um país asiático, onde provei iguarias feitas de inseto. Mas estas não são iguarias.
* * *
Na terça-feira cedo, o porteiro informou que dois policiais estavam embaixo. Subiram. Passei momentos de agonia no meu quarto até que eles se despediram. Meu pai me chamou, os olhos fulminados. Me chamou de irresponsável. Disse que não teria como negarmos, a polícia tinha as provas.