Por que brigamos?
O que uma canção dos anos 1970 ainda nos ensina sobre relações tóxicas
Rolando o Instagram, encontrei uma interpretação autoral e belíssima da cantora Bárbara Eugênia para a canção Por que brigamos?
Lembrei que, quando era criança, gostava muito dessa música, na memorável versão da cantora Diana. Resolvi pesquisar e descobri que se trata da versão em português de I Am… I Said, de Neil Diamond.
A letra original fala de uma crise existencial: alguém que se muda de Nova York para Los Angeles, mas não se sente em casa. No Brasil, a música ganhou uma letra de desabafo sobre um relacionamento desgastado.
Mas tem mais.
Enquanto Bárbara Eugênia entrega uma versão mais moderna e fresca, com novos arranjos (adoro a banda) e uma interpretação contida, Diana é dramática. Basta lembrar quando grita:
“Às vezes tenho vontade de ir pra bem longe
e nunca mais te veeerrr…”
(essa última palavra bem alongada).A canção é datada em vários detalhes. Por exemplo, quando diz: “eu lhe amo tanto”. Esse “lhe” já não se usa mais hoje nesse tipo de frase — ou me engano?
“Ó, meu amado” também soa como algo de um passado distante. Hoje, quase ninguém chama o namorado de “amado”, a não ser com certa ironia.
E segue: “Quando é noite de regresso…”
Aqui, o tempo passado fica ainda mais explícito. Noite de regresso? Parece expressão de outra época. Fico imaginando alguém que trabalha em turno de fábrica e, naquela noite, está em casa.
Atualíssima no conteúdo psicológico
Fato é que Por que brigamos? continua absolutamente atual na análise dos personagens e suas dinâmicas emocionais.
Vejamos:
Quanto mais penso em lhe deixar,
mais eu sinto que não posso.
Pois me prendi à sua vida
muito mais do que devia.
O medo de ele me deixar me apavora, e eu me desespero.O desabafo em primeira pessoa ao “amado” mostra uma mulher fragilizada, com medo intenso de abandono, dificuldade de ficar sozinha e tolerando desrespeito em uma relação tóxica para não perder o vínculo. Em poucas palavras, ela transmite a sensação de vazio e ansiedade só de pensar na possibilidade do outro se afastar.
Indo mais fundo: trata-se de uma mulher com baixa autoestima, e crença de que não é suficiente — em geral, ligadas a experiências precoces de carência afetiva.
Hoje sabemos que esses comportamentos podem se enquadrar no que chamamos de dependência emocional, um padrão relacional disfuncional em que a pessoa se sente presa, paralisada e incapaz de terminar uma relação ruim — muitas vezes abusiva.
E ele, quem é?
O sujeito alvo do desabafo parece ser muito impaciente – para dizer pouco. Segundo a letra, ele:
Briga por qualquer motivo.
Já não consigo esquecer as tolices que você diz nessas horas.
Certamente, o que ele lança são palavras duras, às vezes injustas ou até ofensivas.
Do ponto de vista da psicologia atual, esse homem poderia hoje ser lido como alguém com traços narcisistas, misóginos ou emocionalmente abusivos.
Ela segue a cantilena, afirmando:
A minha paz estou perdendo.
Não posso viver mais assim, sempre chorando.Quanto sofrimento, não é?
A letra dessa versão brasileira, de mais de 50 anos atrás, mostra que continuamos com dores semelhantes nos relacionamentos. A diferença é que hoje já sabemos identificar e nomear dinâmicas emocionais e padrões psicológicos.
Uma grande evolução!
No entanto, ainda resta um longo caminho: mulheres precisam ampliar a capacidade emocional de não sofrer por quem não as merece, reconhecer seus próprios traumas e tentar superá-los. Caso contrário, seguiremos o que diz a letra:
A minha paz estou perdendo.
A nossa vida devia ser de alegria.Tadinha dela!
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Texto: June Meirelles
Imagem: Keila Maria Designs por Pixabay