Gurus digitais e a monetização: mais astutos que o diabo

Gurus digitais e a monetização: mais astutos que o diabo

Entre luz e lucro: como a espiritualidade online se tornou negócio

Gurus digitais e a monetização: mais astutos que o diabo

Entre luz e lucro: como a espiritualidade online se tornou negócio

Você costuma procurar podcasts ou vídeos no YouTube sobre espiritualidade? Pois eu, sim.
Sempre fui muito interessada nesses temas e estou constantemente à procura de conteúdos que tragam alguma reflexão, alguma luz sobre transcendência.

Questões como: a consciência sobrevive ao corpo? E os alienígenas, por que não aparecem?
Bastaria uma resposta definitiva e teríamos a tão sonhada quebra de paradigmas – quem sabe até um novo sentido coletivo para a humanidade.

Mas o que encontro, cada vez mais, é uma enxurrada de conteúdos duvidosos. Gente se dizendo “contatada” por extraterrestres, portadores de mensagens urgentes e exclusivas – ou, pior, autoproclamando-se os próprios ETs em missão na Terra.


Novos gurus – só que não!

E quem são essas pessoas? Primeiro, os donos dos canais. Depois, convidados que falam por duas horas seguidas despejando baboseiras.
Sim, baboseiras!

Se antes era preciso criticar a fé cega pregada por muitos pastores, agora é preciso estar atento a esse outro lado: os que se dizem “espiritualistas” ou “alternativos”, sem religião definida, mas com respostas prontas para tudo o que ciência e filosofia jamais conseguiram explicar.

Um exemplo: o curso de gratidão. Ora, não é preciso ser “espiritualizado” para saber agradecer. Mas, a pagamento, alguém se propõe a te ensinar a dizer “obrigado”. É como cobrar para ensinar a preparar água com açúcar.

A base dos discursos, quase sempre, é o Espiritismo – que respeito profundamente. O problema é que muitos usam essa doutrina como trampolim para delírios e invenções.

Maluquice ou má-fé? Pode haver quem realmente acredite nas próprias sandices, mas a maioria está de cabeça bem boa… e fazendo cálculos sobre dividendos.


Transição planetária: o filão do momento

Não vou citar nomes (até porque a lista seria interminável), mas alguns exemplos valem o registro.

Há quem, depois de esgotar um conteúdo inicialmente interessante, agora encene incorporações grotescas de ETs em vídeos constrangedores. A mensagem? Rasa, genérica, medíocre.

Outra, mais elaborada, fala com frases de efeito e pseudo-ciência. Convence, até que revela que “os seres” aparecem na sala da própria casa. O filho adolescente viu e disparou: “que bagulho é esse?” Afirma ela, para juntar credibilidade ao relato.

E tem ainda a voz maviosa que anuncia a “transição planetária”: dias de escuridão, sem internet, sem mercados, enquanto os “trevosos” seriam arrastados em naves para outras órbitas. Uma blitz intergaláctica comandada pelo Cristo, governador do Universo.

O problema é: quem define quem são os tais trevosos?
E mais: não seria trevoso também quem engana pessoas ingênuas para ganhar dinheiro?


Os comentários: impera a falta de senso crítico

O pior é ver os comentários. Não há um mínimo senso crítico sobre as bizarrices relatadas. Só elogios, possíveis sincronicidades, gratidão.

A mesma senhora, que sentencia os trevosos, diz que, nesta fase de transição planetária, é normal sentir indisposição, fadiga, sono fora do comum. Estaríamos “captando as energias”.

E aí vem o comentário:

De fato, ultimamente não tenho vontade de ir à academia.”

Sério. A pessoa realmente escreveu isso. Como se a preguiça de malhar fosse um sinal cósmico da grande mudança planetária.

Também não faltam elogios do tipo “ser de luz”, relatos de supostos sinais luminosos nos vídeos, ou ainda agradecimentos emocionados pelo “conteúdo transformador”. Quem se opõe, aí sim é criticado, porque não estaria “pronto”.


No fim, tudo gira em torno do mesmo

Esses novos gurus promovem cursos, vivências, atendimentos holísticos, internação em câmeras hiperbáricas, terapias inventadas.
O objetivo é simples e óbvio:
ganhar dinheiro.

Já que estamos falando de espiritualidade, concluímos simbolizando com algo de fato trevoso: noventa e cinco por cento desses gurus são apenas astutos – como o diabo.



Texto: June Meireles

Imagem: Frank Tunder – Unsplash

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