Fênix

Call center

Recebeu o diagnóstico com uma cara inexpressiva. Nem espanto, nem raiva, nem tristeza. Nesses casos, com tratamento em diversas frentes, poderia durar um ano. Depois viriam os cuidados paliativos.

A primeira a ouvir suas cruas verdades foi a própria médica que apresentou o diagnóstico sombrio, uma jovem com o cabelo de um loiro falso, magrinha:

— Não vou fazer tratamento nenhum — disparou, na lata.

A médica, desconcertada, disse que ela poderia procurar uma segunda opinião pois, nesses casos, a sobrevida… — ai sugerindo com uma vozinha fina.

— Entendi. Pelo seu jeitinho você é inexperiente e insegura, quer tirar o seu da reta. E não me fale de sobrevida, me fale de vida ou de morte, sem enrolação.

Surpreendeu-se com aquilo que disse. Era daquelas que pensava, mas não falava, engolia os insultos que gostaria de cuspir na cara do outro, como fazem todos no jogo social. E tentava sempre agradar, colocar panos quentes em atitudes cretinas, tudo para não se desentender com ninguém.

Passou a vida com grande dificuldade em dizer não, acudindo parentes e amigos, na maioria das vezes sem qualquer retribuição. Agora, aos 51 anos, esse problema, um tumor agressivo que lhe tolheria a vida. O curioso é que parece ter mudado de personalidade num clique, assim que ouviu o diagnóstico. Talvez houvesse metástase no cérebro, o tumor pode comprimir algumas áreas, pode acontecer da pessoa mudar o jeito de ser de uma hora para outra. Apenas uma hipótese. Fato é que se sentia diferente, como se o diagnóstico pesado, paradoxalmente, lhe tirasse o peso que carregou durante a vida.

Saiu dali e foi caminhar em um parque tranquilo, precisava pensar. Que tratamento que nada, a guerra já nascia perdida. Quando o diagnóstico era este, deveria aproveitar aquilo que restasse com dignidade. Havia visto tanta gente definhar dia após dia com uma esperança vã. E tome-lhe sessões de uma química selvagem entrando pelo corpo para guerrear com células malvadas mais fortes e mais inteligentes do que qualquer avanço da ciência médica. Células terríveis, que mais pareciam entidades se divertindo com o esforço da pessoa em se manter viva.

Passado o primeiro impacto, começou a racionalizar a possibilidade da morte iminente. E seu pensamento se organizava assim: não é que a vida é uma coisa assim, tão maravilhosa, aliás, é até supervalorizada. São tantos desafios diários, surpresas inesperadas, algumas pequenas alegrias que, além de durar muito pouco, não equilibram o prato da balança.

Quer saber? Vou organizar minha finitude, esvaziar as gavetas, distribuir o que tenho em vida. Depois dizem que a verdadeira vida é aquela que não vemos, que está justamente no além, em uma dimensão não material. Sem falar na chance de reencarnar, de começar do zero, de corrigir defeitos, de evoluir. Ok, e se tudo se acabar e não restar nada além do pó dos ossos para contar a história? Perguntava-se, no seu diálogo interior. Pois, também isso poderia ser um alívio.

Nasci, vivi, realizei algumas coisas, deixei outras pela metade, passei por dissabores, desfrutei de alguns prazeres, como todo mundo. Não sinto culpa de nada, pois fui colocada nesse circo a que chamam de mundo sem ser perguntada se queira ou não atuar. Tenho a consciência tranquila de que nunca fui uma pessoa egoísta, aliás, fiz muito pelos outros. Não pedi para nascer, não estou pedindo para morrer. Foi-me tudo imposto, e, agora, querem o quê? Que me lamente, que entre em depressão porque me informam, assim, secamente, que o jogo acabou? Já disse. A vida é supervalorizada, se notar bem, tem mais desvantagens que vantagens, um negócio instável o tempo todo, nunca se sabe quando alguma desgraça vai ocorrer, as dores que nos aguardam nas horas seguintes da existência. Ah! por favor… Se depois de tudo não acontece nada, se vem somente uma anulação completa, então é uma palhaçada e por isso mesmo também esta pode ser uma boa alternativa, como não? — convencia-se.

O problema era outro — pensava, enquanto sentia o croc croq dos pés na camada de folhas secas que jaziam no chão do parque, era outono. Tudo bem, morrer, mas não queria sentir dores atrozes, horas de agonia, depender dos outros para qualquer coisa, incluindo as mais sórdidas… ah, isso não!

Anteciparia o processo? Não, achava violento, sempre achou. Vou procurar um outro médico. Levo os exames, digo que quero entrar o quanto antes nos tais cuidados paliativos sem passar antes por um suposto “tratamento”. Ele certamente vai me dar remédios para os sintomas, seguir algum protocolo. Por enquanto, ainda estou bem, descobri a encrenca por acaso, tenho algum tempo, essa coisa malvada demora um pouco a desenvolver, pelo menos assim espero.

Com tudo isso devidamente racionalizado, passou à segunda parte das resoluções. Sairia do emprego. Tinha ouvido dizer que quem tem essa doença pode se aposentar precocemente. Só aí já se livraria de muita coisa, incluindo gente chata, jornadas pesadas. Também dispensaria parentes tóxicos, definitivamente não aguentaria mais ninguém que a incomodasse. Se separaria sem divórcio, o casamento andava malíssimo fazia tempo, desconfiava que o marido a traía, pois, estás livre como um pássaro, meu caro. Não havia bens a repartir, também não tinham filhos, o que facilitava tudo.

E assim seguiu. Rompeu relações, eliminou gente falsa e cansativa, passou a fazer somente o que gostava, os dias livres muito bem aproveitados pela aposentadoria precoce. Dedicou-se ao jardim. Pesquisava inseticidas, ouvia tutoriais de como eliminar pragas. Ficava longos minutos olhando a rota das formigas antes de exterminá-las. Havia descoberto um hobby. Ao final do dia — ninguém é de ferro — tomava um chá de jasmim com biscoito integral, se estirava no sofá e percorria as redes sociais.

Uma manhã, depois da caminhada naquele dito parque tranquilo, postou uma selfie com a palavra: Refletindo. A primeira que comentou o post, já recebeu uma pedrada.

Dizia a pessoa: Oi, Sandra, quanto tempo, amiga, saudades. Ao que ela retrucou: Menina, não nos vemos há mais de 40 anos, convivemos pouquíssimo, saudades de quê? Me ajuda a entender…

O post teve poucas curtidas e uma figurinha de espanto. A suposta amiga, com a suposta saudade, não replicou.

Em outro momento, viu que uma conhecida postou o rosto em close, ao qual choveram comentários de linda, gatona e sinônimos. Comentou: Sua pele precisa de hidratação, o make craquelou e tem muita ruga em torno dos olhos. Aliás, a pele está bem judiada, procura urgente uma dermato, ou melhor, um cirurgião plástico (mais produtivo), para dar jeito nas pálpebras que estão em queda livre…você ainda é jovem e não merece estar assim, tão acabada.

Ofendida, a amiga retrucou: obrigada por avisar, mas educação é uma coisa boa. Ela reagiu com emoji de “força”.

Outro conhecido, que sonhava em entrar para o show business, postou um vídeo cantando e tocando violão. Havia elogios e curtidas de conhecidos, mas ela assim se manifestou: Carlos, amado, você não tem vocação para música nem para ser cantor, por que ninguém te avisa? Se tivesse que dar certo já teria dado, né? Tenta outra coisa, que tal jardinagem? Vai por mim, é uma delícia de passatempo.

O comentário ácido foi também para outra que aparecia com cara de freira caridosa, num videozinho no qual fazia um apelo para as pessoas adotarem animais de rua. Ah! ela não aguentou: Mas menina, tô vendo que você mudou, e muito, não é? Que bom! Não foram você e seu marido que deixaram o cachorrinho vira-lata na estrada quando tiveram que viajar? “Ah, mas foi para socorrer minha mãe que estava mal.” Não justifica, querida, se ninguém tem memória, estou eu aqui para lembrar. Vocês foram cruéis, deixem de hipocrisia.

Outra aparecia celebrando a promoção de um colega:

Ué, Priscila, você evoluiu muito da última vez que nos vimos. No trabalho, você não tinha empatia nenhuma, era egoísta, sempre pronta a passar a perna em alguém. Só não te dou de invejosa porque sou boazinha. Torcendo aqui pela sua mudança.

No post de um casal rindo, feliz, com uma chave magnética em detalhe, anunciava-se que o marido havia comprado um carro bem caro. O texto reforçava como valia a pena acreditar nos sonhos e tal. A verdade veio dura.

João e Cristiane, parabéns pela aquisição, mas agora que estão folgados pensem em pagar os empréstimos que vocês fizeram a amigos, a mim inclusive, e colocaram uma pedra em cima. Te passo, inbox, o número do Pix. Fica fácil realizar sonhos quando o dinheiro vem do suor dos outros. Depois de acertar tudo, não esquece o seguro do carrão, importante…vai que alguém passe um canivete na pintura?

Uma ex-cunhada postou a foto com o namorado novo. Ela disparou: Tá tudo lindo, mas espero que você tome juízo, não é Pâmela? Quando namorou o meu irmão, ele te pegou na cama com Dudu da banca de revista no dia em que você disse estar doente em casa. Felicidades ao novo casal!

Uma senhora publicou o resultado da harmonização facial. Choveram elogios de diva e adjetivos semelhantes. Mas ela, foi precisa: Diva, poderosa e linda onde, minha gente? Esta deformadíssima com esse procedimento, ficou com uma cara de velha embalsamada, dá até agonia olhar, gastou dinheiro à toa. Procura ajuda, ouvi dizer que se pode reverter, mas vai logo, quanto mais tempo passar, pior fica.

Na mesma semana, atacou outra que postou um rosto liso e com bronzeado impecável: Que filtro poderoso, Ana Luíza. Outro dia te encontrei pessoalmente e fiquei pensando horas na gravidade das tuas olheiras, da tua pele opaca cheia de mancha, fiquei realmente preocupada… O filtro resolve quase tudo, mas pensa que, se você sumir, vai ser difícil te achar. Pela foto, digo.

E não eram só ataques e críticas ácidas. Mesmo quando elogiava, o post vinha carregado de veneno, como na foto postada no facebook por uma conhecida que passava dos 50, e se apresentava na piscina com um rapaz jovem do lado. Comentou:

Te vi no clube outro dia, de fato, está ótima, excelente resultado da cirurgia na barriga e treino com disciplina. Uma galinha velha que dá um caldo grosso e suculento, cheio de especiarias. Parabéns, amiga, só recomendo olho aberto ao jovem que te acompanha, não custa levantar se ele já desfrutou de outras mulheres de idade.

Tinha se transformado em hater, com o agravante de não ser uma anônima raivosa na internet, mas uma conhecida de todos. Não demorou muito até chegarem os contra-ataques. Era xingada de recalcada, amarga, grossa e outros incontáveis insultos e ameaças. Os que sabiam da doença, amenizavam: Compreendam, não está bem, tem um câncer terminal. Outros, mais nervosos, desejavam que fosse logo para o inferno, era taxada de amarga, que ninguém tinha culpa da sua desgraça.

Ela não se incomodava, aliás, continuou a dizer verdades até ser cancelada pela maioria, enquanto outros ficaram, por distração (tem gente que não olha rede social). Alguns, benevolentes, ficaram por piedade, afinal, a mulher ia morrer logo, deixasse destilar seu veneno, estava com os dias contados, não devia ser fácil para ninguém.

Até que sumiu. Não postava nem comentava mais nada. Ao que tudo indicava, cansou de brigar e insultar. Ou ficou muito mal pela doença inclemente. O tempo passou, chegou seu aniversário e a rede social, que sempre faz o seu trabalho, avisou geral. Ainda magoado, um dos ofendidos aproveitou para saber notícias, com o seguinte post: Não vou dar parabéns à pessoa mais mal-educada e grosseira que conheço. Aliás, está sumida, alguém saberia dizer se já fez a passagem?

Ela, vendo aquilo, deu as caras:

A passagem não farei tão cedo, caro Ednaldo. O câncer teve remissão completa, os médicos até agora estão de boca aberta e levando o caso a Congressos. Investigam a possibilidade de um diagnóstico falso positivo, mas eu tenho a minha teoria. Meu câncer era excesso de sapo que eu engolia. Quando fiz um detox, o sistema imunológico reagiu de maneira tal, que fiquei curada. Te dou mais notícias. Fiz um lifting e coloquei lente de contato nos dentes, deu supercerto. Também fiz uma dieta, parei de comer açúcar e estou malhando com disciplina. Nao vou negar, autoestima lá em cima, renascida das cinzas como fênix.

nix! Veja o que você acha. (foto). E no mais, tudo bem? A diabetes, controlada? Se cuide!

Aparecia sorridente, com um corte de cabelo moderno, magra de dieta e vestindo um conjunto oversize com tênis, muito jovial. Parecia de fato remoçada, como por milagre, aliás, parecia outra pessoa. Os comentários variavam. Uns diziam que era mentira, alguns raros apoiavam, outros insultavam…fato é que o post passou das cinco mil visualizações e teve muitos compartilhamentos. A aparição, porém, durou pouco. Depois disso, os curiosos que queriam acessá-la encontrava sempre a mensagem: página não encontrada.

Texto: June Meireles

Foto: Pixabay

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