Perfume de saliva, suor, sêmen e sangue – Por que rejeitamos odores do corpo quando estão fora de contexto?

Perfume de saliva, suor, sêmen e sangue

- Por que rejeitamos odores do corpo quando estão fora de contexto?

Sou a louca do perfume. Não é que tenha uma daquelas coleções gigantes, mas adoro pesquisar novos aromas e sinto uma necessidade quase física de experimentar cheiros diferentes – podem ser exóticos, mas de preferência, bons, agradáveis.

Até que li sobre um perfume absolutamente inusitado (aliás, existem alguns no mercado de nicho). Chama-se Secretions Magnifiques, da Etat Libre d’Orange. Uma verdadeira bomba sensorial: saliva, suor, sangue e esperma… engarrafados.

Curiosa, fui ler resenhas e opiniões… O consenso? Repulsa. Um perfume – se é que se pode chamar assim – com um cheiro intensamente peculiar e, para muitos, nojento.
Família amadeirada floral aldeídica, iodo no topo, notas leitosas e notas de adrenalina (sim, existe isso!) no coração, e na base íris de Grasse, sândalo e opoponax.

O perfumista é o francês Antoine Lie, que realizou a façanha de capturar em frasco o aroma de fluidos corporais. Quem se atreve a experimentar torce o nariz, faz aquela expressão de nojo. É provocativo, escandaloso, ousado – como uma obra de arte que desafia padrões adormecidos.

O cheiro de sangue

Enquanto preparava o almoço, não conseguia parar de pensar no perfume. Como um perfumista de nicho decide criar algo tão repulsivo? Um pervertido? pensei. (Dizem que a intenção é evocar uma relação sexual intensa, com suor e outros fluidos.)

Peguei o bife, ainda cru, e no saquinho havia um restinho de sangue. Resolvi cheirar.
Repulsivo. Afastei a cabeça.
Continuei cortando e temperando, e me perguntei:

Mas é sangue! Natural, vital, correndo pelas veias e dando vida. Por que, afinal, reagimos assim?

Voltei ao saquinho, cheirei de novo… e surpresa! Era só um cheiro. Nem agradável, nem desagradável, apenas característico.

Meu olfato é apurado, acima da média (comprovado). Não suporto cheiro de animal morto, lixo ou sujeira. Pessoas que não tomam banho ou estão doentes? Distingo de longe.

Mas o Secretions não é isso. Antoine Lie quis chamar a atenção para fluidos de alguém vivo, ativo, humano.

Nunca vi ninguém refutar o cheiro de sêmen no quarto depois de uma transa. O suor, sim, por conta das bactérias, pode incomodar. A saliva, se houver higiene, é só saliva trocada num beijo apaixonado – e ninguém reclama. O sangue, como vimos, tem cheiro, mas não é nojento.

Mas nós, por cultura, química e neurociência, rejeitamos esses odores quando estão fora de contexto.

Engarrafar tudo isso? Uma façanha artística. Grande Antoine Lie!

Vou experimentar o Secretions?

É claro que considerei comprar um decant de 1 ml, levar ao jardim, respirar fundo e cheirá-lo. Mas contrariei minha curiosidade e decidi não experimentar.

Me conheço. O cheiro ficaria na memória por dias, talvez para sempre. Apareceria em sonhos, atrapalharia minhas refeições. Melhor não arriscar.

Agora, se um dia o perfume se apresentar diante de mim, não vou resistir. Diante de mim não estará um frasco, mas conceitos:
Odor provocativo. Escândalo em frasco. Tabu transformado em perfume.
Talvez o
Secretions Magnifiques não seja mesmo para cheirar, mas para pensar.
Para lembrar que até o escandalosamente humano e natural pode nos assustar.
Ou nos fascinar.



Se chegou até aqui, deixe sua opinião, vou adorar!

Texto: June Meirelles

Foto: Silvia por Pixabay





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