O Engasgo
Muito distinta, a dona Josefa. Quase 80 anos, branca, pele muito clara, olhos azuis. Descendência portuguesa, de uma linhagem que, se mexer fundo, vai encontrar colonizador raiz.
O café da tarde é na casa de uma das filhas — são três ao todo.
A mais velha, solteira. A do meio, mexe com moda. A mais nova é a mãe de Pedro, que está noivo.
Importante saber mais sobre esse café, porque os detalhes vão ser importantes.
A mesa tem uma toalha bordada, muito alva, zero encardido. O bule é de prata, as xícaras de porcelana.
Coisa boa.
A geléia está em potinhos pequenos — aliás, dois, são dois sabores.
Café, leite, pãezinhos e uma coisa que não pode faltar: sequilhos. Dona Josefa adora. Estes são especiais, comprados numa padaria centenária, receita antiquíssima.
Açúcar equilibrado e, como se diz, derretem na boca.
Uma jarra fina ostenta um suco que pode ser de goiaba, recém-feito.
Apesar do refinamento e das gostosuras, há alguma coisa no ar que pesa.
Os sorrisos são forçados, a alegria, artificial.
Dona Josefa está acima do peso, mas detesta tudo o que possa ser light, diet ou que a obrigue a diminuir as medidas. Não se fala em caminhada, apesar de o médico recomendar. Odeia tudo isso e se joga sem piedade nos exageros.
Em torno da mesa redonda estão as três filhas e o neto Pedro, a um passo do casamento. Ou, pelo menos, é o que pensa dona Josefa, que até já tirou a primeira prova de um longo verde que vai combinar com os brincos de esmeralda.
O ar-condicionado está ligado, mas uma das filhas — a dona da casa — se lamenta. Nossa, que calor!
Alguém comenta que pode ser menopausa. Ela concorda, diz que, de fato, na última análise os hormônios estavam baixos e tal.
A conversa segue por ali, com exemplos: “fulana fez reposição”, “fulana não fez, diz que o sono melhorou”, etc.
Pedro estuda Medicina, futuro promissor. Vai seguir a carreira do avô, pneumologista renomado. Ele se serve do suco e toma aos pouquinhos, sem pressa. A mãe insiste nos mini-pãezinhos, fala do patê de azeitona.
Mas ele diz que comeu um sanduíche na faculdade, está sem fome.
Dona Josefa protesta:
— Comeu besteira sabendo que sua mãe ia preparar essa maravilha de café, Pedrinho?
Ele procura os olhos de uma das tias, como se pedisse que apressasse a conversa.
Então, o gancho surge.
Dona Josefa pergunta por Lininha (se chama Aline), a noiva. Quer saber se ela afinal decidiu onde passar a lua de mel. Nunca viu noiva mais indecisa.
Paris, Fernando de Noronha, Itália, com Capri, ou Dubai.
— Então, decidiram? — indaga dona Josefa, os olhos azuis muito curiosos.
Um lapso de silêncio se faz em torno da mesa oval. Dona Josefa já começou a tomar seu café com leite e ataca os sequilhos, sua paixão.
Vai pegando aos poucos, os dedos grossos, as unhas pintadas num tom rosa chá, um anel de pedra preciosa.
O rapaz está sério.
Mãe e tias olham para suas respectivas xícaras como se pedissem socorro.
Com uma voz cheia de cuidados, a filha do meio diz, escolhendo as palavras:
— Mamãe, os meninos… decidiram outra coisa.
— Decidiram o quê? Não querem viajar?
Como ninguém responde, ela emenda, num tom ansioso:
— O que é que há?
A tia do meio dispara:
— Na verdade, eles decidiram que não se casam mais.
— Não entendi. Brigaram, foi isso, Pedro? — reage a velha senhora.
Olha o neto com seus dois olhos grandes e claros, que querem saber tudo.
— Não, vó. Eu que desisti, porque tenho outra orientação sexual.
Dona Josefa não entende o linguajar moderno.
Capta somente a palavra “sexual”, e, para ela, alguma coisa já não vai bem.
— Tem o quê, meu filho?
— Eu sou gay, vó — Pedro diz num tom ameno, mas seguro.
A tia mais velha complementa rápido:
— Nesse caso é melhor mesmo não casar. Pra separar depois? Não adianta — fala apressada, tentando reparar as coisas.
Dona Josefa sabe o que é um gay. Pode ser que no tempo dela se chamasse de outro modo, mas ela não é tão desatualizada assim. Pedro abre a boca para explicar melhor, tem um discurso pronto.
Mas, tarde demais. Dona Josefa pigarreia, começa a tossir.
Engasgou-se.
Não é difícil adivinhar por quê.
Os sequilhos são feitos com polvilho — literalmente um pó de amido que vira receitas deliciosas.
Numa situação assim, ao limite, esse pozinho pode fazer estrago na garganta de uma pessoa que não o ingeriu como se deve. Atinge a epiglote e vira um problema que envolve tosse, falta de ar, sensação de sufocamento.
Dona Josefa está no meio de uma síncope. Uma filha pega água, outra manda levantar os braços. A velha senhora fica muito vermelha, os olhos esbugalhados, vê-se que está em apuros.
Pedro, a princípio, não reage.
Mas, num ato instintivo, dá um tapa nas costas da avó, que milagrosamente volta a respirar.
As filhas ficam em torno dela, apreensivas.
— Mamãe, tá melhor?
Ela levanta a mão como quem diz: “Tá tudo bem, sobrevivi.”
Lágrimas saem dos seus olhos, mas não está chorando — foi o processo todo que estimulou essa água a escorrer.
Ela seca os olhos cuidadosamente com um guardanapo, não quer borrar a maquiagem. Pigarreia mais um pouco. Parece ter sido por pouco.
Quando finalmente consegue articular alguma palavra, dona Josefa diz, com a voz ainda comprometida, meio rouca:
— Joaninha morreu assim.
Ao que a filha rebate:
— Mas ela engasgou com vinho.
Texto: June Meirelles
Foto: Alisa Foxy – Pexels