Esconde-esconde
David estava intrigado. Que tanto choro era aquele? A filha, vestida de preto, o nariz vermelho. A sogra comendo escondida, a diarista que não veio. Tinha pó acumulado na mesinha de vidro. Ele perguntava, ninguém respondia. A casa sempre lotada, visita toda hora, semblantes pesados.
O fato: um violento acidente de carro havia tirado a vida de um homem de 40 anos — tinha-se muito a lamentar. Mas quanto mais choro e velas, mais David ficava aterrado. Nada do corpo sutil voar e tomar seu paradeiro.
Tomava banho, pegava o metrô, ia ao trabalho. Sentava-se à mesa para jantar, reclamava do bife duro, da sopa salgada.
A princípio ninguém se deu conta de que ele andava por ali. Mas um ou outro, mais sensível, começou a perceber que havia uma presença, um alguém que não se via. Ora era um vulto, um bater de porta, barulhos à noite que incomodavam o sono, enfim — não demorou até que todos concluíram.
É David.
A contradição.
Por mais que tenham lamentado sua morte, depois de dois meses aquela presença tornou-se incômoda, fora de lugar.
Quem fica pode até chorar (de vez em quando) e sentir falta (cada vez menos). Mas conviver com fantasma é outra coisa. Ninguém quer.
Chegou ao ponto que estava ficando chato. A jovem de dezoito anos estava no sofá, em amassos com o namorado, quando sentiu claramente uma limpada de garganta. Era David, evitando que o carinho evoluísse.
Na noite funda, uma agonia crescente. A janela que batia sem parar, o bule de café que caiu sozinho e outros tantos pequenos sinais.
Falaram com um padre, encomendaram uma missa.
Nada. David continuou enchendo o saco.
Chamaram um médium, especialista em mortos teimosos. O homem, baixinho e atarracado, concentrou-se, ficou muito vermelho e chamou:
— David, se você estiver aqui, manifeste-se!
Houve um silêncio.
Até que a cadeira fez um barulho, como se alguém tivesse levantado as pernas e batido com força no chão.
O homem abriu os olhos e balançou a cabeça, confirmando. Pediu a todos que dessem as mãos e fez uma longa oração.
— Meu irmão, você agora pertence à luz, e tal.
Pegou seu pagamento e foi-se embora, sorridente. Confirmava que o morto tinha entendido e, finalmente, passado para o plano onde deveria estar.
Agora vamos pensar no lado de David. Ele de fato fez a perna da mesa bater no chão, mas não diretamente. Foi a raiva vinda dele que moveu o móvel, quando o médium começou a sugerir que ele fosse embora.
Pois estão querendo que eu saia da minha própria casa? E essa insinuação de que não estou vivo, de onde esse gorducho tirou isso? Que palhaçada é esta?
Reagiu assim o pobre David.
Esse estado emocional o aterrou ainda mais. Ele entrou numa espiral paranoide. Era pela herança que estavam tentando fazê-lo desaparecer.
Pois não iam conseguir — afirmava, resoluto.
E se fazia ainda mais presente. Sua energia fazia com que vidros se quebrassem, ventanias imprevistas ocorressem no jardim, as pessoas sentissem incômodos intestinais.
— Aquele médium de araque não resolveu foi nada — lamentou-se a sogra.
Alguém tinha ouvido falar em outra médium, muito acurada — esta, sim, parecia competente. Marcaram.
Bastaram poucos minutos para a médium Vera Lúcia Andrade Couto dar o veredito (meio óbvio).
— Ele não entendeu que morreu — afirmou.
— E agora? — perguntou a filha.
— É preciso que alguém da confiança dele lhe diga, que o informe.
— Mas a senhora mesma não pode fazer? Fica mais fácil… — arriscou a viúva.
— Não, eu não posso! — rebateu com veemência a médium.
— Ele não me conhece, não vai funcionar. Tem que ser um parente, alguém da confiança dele — repetiu.
O irmão mais velho caiu logo fora, alegou a dor crônica nas costas. A irmã mais nova disse que estava com a labirintite atacada pelo estresse — não tinha condições. Antes que chegassem a ela, a sogra se antecipava dizendo não, não, com as mãos e o rosto.
— Deus me livre, ele implicava comigo, me destratava, vai achar que estou contra ele.
Todos olharam para a mulher de David, era a candidata natural. Mas ela foi enfática:
— Vou dizer uma coisa a vocês. David sempre foi difícil, uma vez tentou me enforcar. Só eu sei o que passei com ele. Não vou me arriscar. Será possível que eu não posso ter um minuto de paz? — disse com voz de choro.
Parecia um caso sem solução. Até que Ivan, um primo, dono de farmácia, disse calmamente:
— Deixe que eu falo com ele.
Alívio geral. A médium passou às orientações.
Ele teria que informar a David que ele tinha passado desta para melhor. Com palavras escolhidas, com jeito…
Um ambiente em penumbra foi preparado. Na sala ficaram só a médium e o primo. David, chamado, não demorou a vir.
— Pode falar — disse ela ao primo Ivan.
Ele respirou fundo e, com uma voz mansa, iniciou o discurso:
— Veja, David, a vida não se esgota aqui. Prova disso é que você morreu, mas está vivo — deu uma risadinha nervosa.
— Um dia vamos nos encontrar. Você está resistindo, a casa está perturbada. Sei que você não faz por mal, mas…
A médium, que intermediava a conversa, disse que David estava respondendo malíssimo.
— Continua com a ideia fixa de que querem se livrar dele a todo custo, que estão inventando coisas… — disse ela, que continuava a apurar os sentidos, os olhos fechados.
— Ah, está dizendo: vocês não têm limite, não têm empatia — traduzia.
Em seguida, David passou a ofender o primo, chamando-o de invejoso. Trouxe mágoas de infância. Foi soltando tanta coisa que a médium ficava constrangida em passar completamente a mensagem.
David se irritava. Fez derrubar um vaso de vidro que se partiu no chão. E não parou por aí.
De repente, Vera Lúcia Andrade Couto se contorceu, mudou a expressão e a voz. Fez um movimento estranho com o corpo, se tremeu inteira. Era David, em pessoa, quem se manifestava. O primo arregalou os olhos, deu um passo para trás.
— Morri? Morri de quê? Logo não vê que isso não faz sentido, Ivan, seu merda… — disse David com uma voz metálica, estranha.
O primo interrompeu-o e narrou o acidente de carro em detalhes crus. Firme e sem pena, concluiu:
— Você já era, David, agora tem que procurar seu rumo. Para de atazanar, caramba! Era ruim em vida, é pior na morte?
David, afinal, lembrou-se. Um choque violento, um estrondo…e de não ter chegado onde devia naquele dia. Mas admitir que estava morto — não admitiu.
Estou no hospital, em coma. Os medicamentos dão alucinação — convencia-se.
E da casa não saiu.
Até que as pessoas foram se acostumando com o bater de portas, com algum vulto que passava no corredor e entrava na escuridão.
A coisa perdeu força, banalizou. E a vida seguiu.
David começou a perceber a mudança. Sem interação, ignorado até o osso, iniciou um período de solidão dolorida.
Seu espírito, sua alma, seu eu profundo entraram em depressão. Passava longos momentos sentado no sofá da sala enquanto a família assistia à comédia, rindo e comendo pipoca.
Nos domingos, não ficava ninguém. Saíam para churrascos, passeios, para o estádio…
E tarde de domingo, sabe como é — treva. Com o emocional a zero, ele tomou a decisão.
Se mataria.
Foi até o banheiro, abriu o armário e pegou o frasco de ansiolítico tarja preta que tomava todos os dias.
Abriu a torneira e, com goles de água na mão, esgotou as pílulas do frasco.
Uma bomba.
Sentiu uma tontura fortíssima, como se tivesse entrado em um liquidificador gigante.
Depois desse dia, a paz voltou a reinar na casa.
Um ano se passou. A família relembrou a ausência (e o alívio de ele ter finalmente virado a esquina do além) com uma missa.
David, que andava sumido, cuidando da morte, não resistiu. Veio assistir à missa e por ali ficou até a saída da família. Do lado de fora da igreja, sorrisos, cumprimentos, pessoas conhecidas.
Era uma bela manhã de domingo, crianças brincavam de esconde-esconde.
David sentiu saudades, ah…como é bela a vida.
Mas logo se enfezou.
Passados alguns minutos, uma menina de seus sete anos chegou esbaforida, as bochechas em brasa.
Atropelava as palavras, tadinha — não se entendia nada.
Uma tia mais calma disse a ela:
— Amanda, respira… diga à tia Celeste. O que aconteceu?
— Mateus tava brincando com a gente. Se escondeu, tem mais de uma hora e ninguém acha — disse a menina, os olhinhos castanhos adivinhando o terror.
Texto: June Meireles
Imagem: Clem Cou by Pixabay