A longa noite escura

A longa noite escura

Sabe como é cidade pequena. A cada curva de esquina se junta mais uma informação para uma notícia. Mas, nesse caso, a notícia era bastante objetiva. O dia ia acabar mais cedo, por volta das quatro da tarde.

Era outono, mas aparentemente não tinha a ver com a estação. Pelo menos a previsão do tempo não tinha dito nada a respeito. Também não havia outra razão prática. E isso só ajudava a criar o clima de alarde.

Mas, afinal, quem foi que começou com isso? Não se sabe. O que se sabia, com certeza, é que o dia acabaria ainda durante a tarde. Então que se tomassem as providências práticas, como pegar as crianças mais cedo na escola, comprar o pão, sim, porque na padaria já tinha um aviso que em função do encurtamento do dia…

E embora se soubesse que era somente o dia que acabaria mais cedo, especulava-se muito. Alguns olhavam o céu a espera de algum sinal. Mas aquele era um dia luminoso, o sol imperava sem aqueles ventos que gostavam de soprar trazendo mensagens lúgubres. Sinal de chuva também não havia, nuvem somente aquelas branquinhas de desenho infantil.

Descartou-se um fenômeno meteorológico, não era o caso de eclipse solar ou coisa parecida.

Almoçou-se por volta do meio dia e meia, esse era o costume. Mas o cochilo já não foi possível, estavam todos muito ansiosos. Isso desestabilizou um pouco as emoções, porque eram acostumados àquela pausa.

Duas e meia da tarde e uma movimentação incomum. Carro para lá e para cá, gente chegando do trabalho mais cedo, uma sensação de urgência com filas nos mercadinhos para a compra de provisões, cigarros, cerveja, pipoca e sorvete. Um clima parecido com aquele que antecede os jogos da copa do mundo.

As 3h30 não tinha viva alma na rua. Tudo silencioso, pior que em dia de feriado à tarde.

As 4h11 o sol de fato entrou em declive no horizonte e sumiu. Diga-se de passagem que não foi um por do sol especial, daqueles que se contempla. O sol foi embora sem pressa, mas também sem muita cerimônia.

De imediato uma treva como as das cavernas mais escuras invadiu a cidadela. O problema é que as luzes elétricas também não se acenderam para amenizar os efeitos dessa longa noite escura.

Mas, – alguém pode perguntar – e a lua, não fez o seu papel? Pois também ela se retirou, atendendo a sabe-se lá a que ordem ou desejo.

Recorreu-se a velas, e sabe como é quando se acende velas e elas começam a crepitar as chamas oscilantes. Um clima misterioso e intimista se instala e convida a reflexão dos atos, dos pecados mais íntimos e das dores secretas. Nesta noite turva, era uma pequena cidade inteira sob essa influência.

Sem ter como se distrair com rádio, televisão ou internet, dormiram cedo e despertaram também muito cedo, ansiavam pela luz que invade o dia, descortinando tudo, num espetáculo de vida que volta com força e esperança em recomeços.

A bela claridade, poréem, a aurora, deusa do amanhecer, não surgiu nem mesmo quando o relógio soou onze e meia da manhã.

Texto: June Meireles

Foto: Adina Voicu por Pixabay

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